top of page
  • LinkedIn
  • Telegram
  • Instagram

O que o Homem-Aranha nos ensina sobre o processo vocacional?

  • Foto do escritor: Dione Afonso Rodriques Pereira
    Dione Afonso Rodriques Pereira
  • 9 de ago.
  • 4 min de leitura


Diz o evangelho que Jesus, quando constituiu a sua primeira comunidade de discípulos, Ele escolheu e chamou os que Ele quis e os enviou em missão (cf. Mc 3, 13-14). Assim, formou o primeiro grupo dos Doze, pessoas simples, que realizavam atividades comuns, alguns eram pescadores, gente comum que realizava atividades cotidianas. O que se destaca nesta atividade é que o Senhor apontou para pessoas do meio da comunidade e os preparou para ajudá-lo na tarefa do Reino. E assim perpetua até os dias atuais. Ainda hoje o chamado de Deus continua a se realizar e escolher pessoas, homens e mulheres para dar seguimento à missão.


Com o avançar dos tempos, a igreja foi desenvolvendo, aprimorando e atualizando o processo vocacional de homens e mulheres que aspiravam ao apostolado missionário. Hoje, este caminho se configura em etapas formativas de estudo, oração e de convivência fraterna em seminários e conventos. Nos cinemas, o recente filme de super-herói do Homem-Aranha nos ajuda a compreender um pouco sobre este chamado vocacional que encanta os jovens de hoje. O seu slogan “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” pode, muito bem, ser identificado como uma forte compreensão vocacional, pois é a partir de um grande chamado, chega em nossa vida uma grande responsabilidade: o povo de Deus, que, continuamente aguarda homens e mulheres para dar-lhes uma palavra de esperança.

 


Ser o “amigão da vizinhança”

Peter Parker, o Homem-Aranha tinha uma missão muito clara diante do chamado que recebeu: para ser o amigão da vizinhança ele cuidava dos que estavam em perigo. Era gentil e tinha um coração bom. Lutava para que ninguém pudesse se ferir e quando não conseguia salvar a todos sofria muito com aquela vida que se perdia. Durante o processo vocacional de um jovem, ter essa clareza a respeito da missão à qual acredita ter sido chamado é algo essencial. A caminhada vocacional e as etapas formativas precisam esclarecer, que dizer, apurar o chamado que um dia receberam. É como “lapidar um diamante bruto” a fim de extirpar aquilo que nos desvia do caminho e permanecer somente com o que é verdadeiro.


Encontrar o propósito na vida é buscar o equilíbrio entre a missão, o trabalho e a vida pessoal. É interessante como que o filme explora na identidade do super-herói esta dualidade. E fica claro que ela não funciona nem na ficção e muito menos na vida real. Jesus deixa claro que quem se propõe a segui-lo, mas sente saudades da vida antiga, olha para trás ou expressa anseios pela vida pessoal, este não serve para o Reino (cf. Mc 9, 57-62), pois seu coração ficará dividido e o chamado vocacional dúbio, ludibriado por elementos enganadores que maquiariam a verdadeira voz de Deus. No processo vocacional, o primeiro passo é o do encantamento, do autoconhecimento e de compreender qual é o propósito da vida. Colocar aquele “sentido-aranha” a serviço.


O que alguns chamam de o peso da responsabilidade, talvez devêssemos batizar como a alegria missionária que enche a vida e o coração daquele que encontra seu ideal e reconhece o porquê do chamado. Na narrativa do cinema, Peter Parker sofre ao ter que fazer renúncias, escolher entre um caminho ou outro e se dedicar totalmente ao que ele acredita ser sua missão. Na sua jornada, ele tenta lidar com os fracassos na realização pessoal e a incerteza quanto ao futuro. Peter reflete a vida da maioria dos jovens de hoje que buscam um sentido para a própria vida, buscam algo em que possam se agarrar e acreditar, buscam uma chance de vencer e ter esperança novamente.

 


Vivemos uma crise vocacional?

A crise que estamos atravessando trata-se mais de uma crise humana, pois esta engloba todas as outras situações desafiadoras que a sociedade assiste. Estamos lidando com uma geração que sofre com a fragmentação na formação humana. Imaturos, sentem medo da dor e tudo o que os fazem sofrer, eles repelem de suas vidas. Por não terem chance de passar por desafios, a sociedade lida com adultos frágeis e que não se desenvolveram integralmente. No processo formativo dos discípulos de Jesus, nos evangelhos, fica claro que os momentos desafiadores moldaram aquele grupo e depois das tempestades, das crises pessoais e na missão, eles se educaram para o futuro daquela comunidade cristã. Portanto, não estamos lidando com uma crise vocacional, mas estamos lidando com uma crise na formação humana e cristã que desemboca em toda a cultura vocacional, seja na vida religiosa e familiar.


O maior desafio que temos hoje é a de construir um caminho formativo que corresponda com esse público jovem que a sociedade possui. Reproduzir as mesmas etapas formativas de 20 anos atrás é um erro e pode até contribuir para a fragilidade formativa. Esses processos já se revelam imaturos para os tempos de hoje. Não devemos, é claro, abandonar os valores, esquecer do carisma ou deixar de lado o Evangelho. Este é um tripé que precisa manter-se firme, contudo, ele carece de nova roupagem, nova linguagem e novo formato. Se as estruturas físicas de um seminário suntuoso ainda convidam jovens para ingressarem numa vida “separada” da sociedade, é preciso reverter este sentimento. O “sentido-aranha” nos chama para fora e não para dentro. O mesmo se diz das vestes, o hábito religioso que é muito bonito, aliás. Ele pode até se tornar um atrativo vocacional, e não está errado se assim for, contudo, ele é acessório e não elemento essencial do chamado.


Não vai adiantar muito rever o plano de formação, reestruturar as etapas formativas, rever o noviciado, se continuarmos insistindo no mesmo cronograma, aquele mesmo quadro de horários, aquela pilha de 20 livros para ler (os mesmos de 20 anos atrás, inclusive) e com um formador que além de outras 10 funções na comunidade ele “faz bico cuidando de alguns jovens” que aspiram ingressar na vida religiosa. Isso porque não estamos abordando aqui a cultura digital. Vamos deixar pra um próximo artigo. Os jovens vocacionados de hoje, rapazes e moças, que aspiram à vida religiosa, têm o desejo de serem verdadeiros “amigões da vizinhança”, e isso implica estar cada vez mais no meio do povo do que “trancados” dentro do seminário. Claro que é preciso cuidar com mais intensidade da vida de oração, e esta não pode ser negociada, porém, com igual relevância, a vida missionária, apostólica e o “sentido-aranha” que nos impele para fora, também não!





Ir. Dione Afonso, SDN

Missionário Sacramentino de Nossa Senhora

 
 
 

Comentários


bottom of page