Charles de Foucauld, o “irmão universal pobre entre os pobres”

Desde o meu aspirantado, que teve início em 2012 quando ingressei oficialmente na Congregação dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, em Manhumirim, MG, o livro A aventura mística de Charles de Foucauld, de 1958 tornou-se o meu livro de cabeceira. Com suas páginas amareladas, cheiro que ataca a rinite e crise alérgica, a obra assinada por Carrouges marcou profundamente a minha experiência vocacional.
A obra é uma espécie de “diário espiritual” de uma grande aventura vivida pelo “irmão de Jesus” no deserto africano. Diante da desordem natural do mundo, que perturba a nossa espiritualidade, nossa oração, enfraquece nossa fé, a experiência de Charles de Foucauld nos insere com toda coragem nessa mesma sociedade. Essa é a primeira marca desse homem que em mim chamou a atenção.
Não se isolar do mundo. Não é uma questão de purificar-se, mas é de amar. Amar os homens, amar o mundo: “para nos fortalecer na fé e em nossa espiritualidade não devemos nos afastar do mundo, mas ser nele alguém capaz de entende-lo e transforma-lo”.
Amor ao Evangelho. É também uma marca de sua vida. Charles de Foucauld, busca nos ensinamentos do Homem de Nazaré os motivos para sua presença entre os homens e, a partir disso, ele reconhece que é preciso “amar os homens de todas as classes e de todas as raças”.
Despojamento de si para vencer: o anonimato da massa, ou seja, não podemos ceder ao assédio dessa época em nos tornar apenas mais um entre os homens. É preciso “reencontrar o senso da pessoa humana nessa época”; e, também, a “necessidade absoluta do esquecimento de si”, diz Foucauld: “sem o rigor de um despojamento completo segundo o evangelho, ninguém poderá ser um autêntico artífice de unidade entre os homens. Só através da pobreza voluntária, da humildade, do abandono dos valores próprios é que chegaremos a uma capacidade universal de compreender com simpatia e amar sem fingimento e sem lassidão homens diferentes de nós”.
Primeiro capítulo da aventura: um jovem sonhador e corajoso
O comunicado da canonização do Beato Irmão Charles de Foucauld é recebida com muita alegria. É uma novidade para esse tempo em que estamos vivendo. Renova as forças da Igreja, revigora a fé de nossas comunidades e, sem sombras de dúvida, confirma a nossa experiência transcendental que alimenta não só a nossa vida religiosa, mas, – e de forma bastante pessoal – a própria experiência e decisão vocacional.
Charles de Foucauld nasceu a 15 de setembro de 1858, ano das aparições de Lourdes e um ano antes da morte do santo cura de Ars. No livro de cabeceira, já logo no segundo capítulo há um relato de Charles no período da guerra em Sammur que já identificava o caráter e a fé de Charles (mesmo sendo, naquele tempo, um jovem entregue às delícias da vida e aos prazeres): “o que o guarda no mais íntimo do coração, não o revelaria a ninguém. Eu fazia o mal, mas não o aprovava nem o amava. Vós me fazíeis sentir, dirá muitos anos depois – diante da Cruz do Cristo, Vós me fazíeis sentir um doloroso vazio, uma tristeza que não experimentei senão a esse tempo; ela voltava cada tarde, quando eu me achava só em meu apartamento”, (p. 26).
Durante sua estadia no exército, Foucauld era muito respeitado pelos companheiros. Era um líder corajoso e de caráter sem igual. Não media esforços para ajudar e salvar sua trupe. No desenrolar dos capítulos dessa aventura, o autor vai narrando as experiências culturais locais e, sobretudo, religiosas que vão ficando marcados em Charles de Foucauld. O feriado de Pentecostes, por exemplo, em meio ao Marrocos, deixou Charles curioso: ninguém naquele lugar se atrevia a trabalhar nesse dia. Charles, respeitou.
Mantinha também postura de denúncia a favor de um povo que sofria com as negligências do governo: “triste região em que o governo faz pagar muito caro ao povo por uma segurança que não lhe oferece, pois não protege ninguém, ameaça os bens de todos. Acrescente a usura e a prisão por dívidas. É preciso velar à noite. Fecha-se o olho um instante e roubam animais e colheitas. (...) Quem era rico de manhã, é pobre à tarde...”
Um dado interessante: Charles tinha uma relação amigável muito sagrada com sua prima, Marie, com quem sempre trocava correspondência. Era a única mulher com quem ele se abria e revelava aquilo que estava no coração. E isso foi decisivo em sua opção pela Vida Religiosa. Além dela, a irmã e uma recém convertida do protestantismo para o catolicismo embarcam numa missão em converter também o coração de Charles de Foucauld. A oração dessas mulheres colocou Foucauld num novo capítulo de sua experiência.
“A fé é alguma coisa que não se impõe”
Uma transição marcada por um recolhimento e solidão. Não seria fácil esquecer de tudo o que viveu com os companheiros nos campos de guerra, as mulheres, os amigos, a profissão, o povo... Mas, ao entrar naquela igreja, olhar a imagem de Santo Agostinho, e, no silêncio rezar: “Meu Deus, se Vós existis, fazei que eu Vos conheça”. Uma oração simples, mas profunda, brotada de um anseio intenso de seu coração. Mais tarde, ao conhecer o padre local, Padre Huvelin, Foucauld se confessa e inicia uma nova vida.
Decide pisar, literalmente, aos 28 anos, nas ruas de Nazaré. “Desde que eu acreditei que Deus existe, compreendi que só poderia viver para Ele: minha vocação religiosa data do mesmo instante que minha fé”. E Charles vai, aos poucos compreendendo o novo propósito de sua vida. A partir daqui, ele não cessa de frequentar a Igreja de Santo Agostinho e de procurar o padre Huvelin para o seu discernimento. Não vamos mais nos estender por aqui, pois a vida de Charles de Foucauld e sua Aventura Mística pela Nazaré de Jesus que se faz sua Nazaré também deve ser conferida página por página, linha por linha.
O Irmão Charles de Foucauld soube traduzir em sua vida a verdadeira essência do Evangelho. Reconheceu que os pobres são os protagonistas desse anúncio e que para eles devemos sempre nos direcionar. Fez daquela oração simples e questionadora o seu ideal de vida.
A notícia de sua canonização
Antes de se tornar “Irmão Carlos de Jesus”, o jovem Charles, nascido em Estrasburgo, iniciou uma carreira militar, seguindo os passos de seu avô que o havia criado quando ficou órfão de seus pais aos 6 anos. O futuro beato deixou a fé de lado durante sua adolescência, mas durante uma perigosa exploração no Marrocos, em 1883-1884, despertou nele uma pergunta: “Deus existe?”. “Meu Deus, se você existe, deixe-me conhecê-lo”, foi seu pedido, que já assumiu as características daquela oração incessante que marcou toda sua vida.
Voltando à França, Foucauld inicia sua busca espiritual e direcionamento de vida. Depois foi em peregrinação à Terra Santa e lá, nos lugares da vida de Cristo, encontrou sua vocação: consagrar-se totalmente a Deus, imitando Jesus numa vida escondida e silenciosa. Ordenado sacerdote aos 43 anos (1901), Charles de Foucauld foi para o deserto argelino do Saara, primeiro para Beni Abbès, pobre entre os mais pobres, depois mais ao sul para Tamanrasset com os Tuareg do Hoggar.
Viveu uma vida de oração, meditando continuamente a Sagrada Escritura, no desejo incessante de ser para cada pessoa o “irmão universal”. Morreu aos 58 anos na noite de 1º de dezembro de 1916, assassinado por um bando de saqueadores de passagem. Bento XVI o beatificou em 2005. Papa Francisco ainda não anunciou a data de sua canonização por conta do momento atual sanitário em vista do coronavírus.
Hoje, como Missionário Sacramentino, revisito as páginas dessa sua biografia e sinto que tal aventura mística é um projeto de vida e de vocação que muito deve nos inspirar e ajudar no nosso discernimento pessoal, vocacional e no nosso trabalho social e missionário com o nosso povo.
Ir. Dione Afonso, SDN
Missionário Sacramentino de Nossa Senhora
@odionecomd | dioneafonsofaje@gmail.com



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