MÊS DA BÍBLIA 2026: campo fértil para as novas Diretrizes Gerais da CNBB
- Dione Afonso Rodriques Pereira
- 17 de ago.
- 7 min de leitura

A Igreja no Brasil, através da CNBB, órgão máximo da ação evangelizadora no país publicou neste ano as novas DGAE que traçam os próximos passos de nossa missão. De forma inovadora, é a primeira vez que as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, lança o documento para um período de seis anos: de 2026 a 2032. Superando aquela simbologia da Igreja “como casa da missão”, agora o símbolo que renova nossa prática missionária é a da “Igreja-Tenda”, mais ampla, flexível. Mais leve, itinerante e sempre pronta para “alargar sua tenda” (cf. Is 54, 2) a fim de chegar a todos e todas. Com inspiração bíblica, essa tenda é reforçada pelas cordas da missão, que no documento, distribuem-se em 5: 1. Animação Bíblica da Pastoral; 2. Iniciação à Vida Cristã; 3. Liturgia e Piedade Popular; 4. Rede de Comunidades de Discípulos Missionários e 5. Serviço de Vida Plena para Todos e Todas. O texto é muito leve, objetivo e direto. Nós, cristãos, lideranças espalhadas nas mais diversas pequenas comunidades eclesiais em todo o Brasil, tem nas mãos um texto que se reflete com verdade e otimismo diante da realidade que nos afeta.
Neste ano de 2026, para o mês de setembro, mês da bíblia, a Igreja nos convida a refletir, rezar, estudar e colocar em prática os ensinamentos e as provocações que o Livro do profeta Daniel nos traz. Com o tema “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7, 14), a Palavra de Deus nos apresenta uma reflexão bastante atual e que proporciona às novas DGAE uma rica oportunidade de colocar em prática as suas intuições pastorais diante das “cordas da missão” presentes no documento da CNBB. Cada corda sustenta a grande lona da Palavra de Deus e dos Sacramentos. Corda bamba é sinal de enfraquecimento na vivência da fé, pouca escuta da Palavra e distanciamento das experiências sacramentais na vida da comunidade. É necessário saber unir “cordas e lona” com o nó bem dado na realidade de cada comunidade, que é onde se “fincam as estacas” e fixa a missão.
Ler as Diretrizes Gerais a partir do profeta Daniel
Sem nos alongar muito, e sem apresentar uma profunda reflexão e estudo a respeito do Livro do profeta, traçamos aqui os elementos centrais que se encaixam de forma interpretativa de acordo com os caminhos da missão apresentados pelas DGAE. Percebemos que o mês da bíblia acaba se tornando um terreno muito fértil, na qual a semente lançada poderá produzir frutos de até cem por um (Mt 13, 8).
Sobre a Animação Bíblica da Vida e da Pastoral (ABVP), as Diretrizes afirmam que a Palavra de Deus deve estar presente em toda ação pastoral da Igreja. Bem como estar presente em toda a comunidade, iluminando a vida dos cristãos e cristãs, sendo a base na família e sendo inspiração entre as lideranças paroquiais. A ABVP “não é uma pastoral a mais, mas a qualidade da igreja, enquanto comunidade que se deixa conduzir pela Palavra” (DGAE, n. 107). Tal presença da Palavra de Deus em todo o nosso agir e guiando cada passo das nossas decisões também é percebida no Livro do profeta Daniel.
Daniel e seus companheiros não titubearam e nem negaram a fé quando Jerusalém, ao sofrer uma violenta invasão, foram deportados e escravizados durante o exílio babilônico. Mas, porque creram em Deus e não abandonaram a sua fé Nele, foram guiados pelas Escrituras e protegidos contra as atrocidades do rei opressor. O hino que os três jovens entoam de pé na fornalha ardente é uma profissão de fé no único Deus que é o Senhor Criador, Senhor da história e o único cujo seu nome é bendito e digno de louvor (Dn 3, 52-90) e, eles O reconhecem como tal.
Nas indicações pastorais, as DGAE cobram ações em três eixos: formação, oração e anúncio: partindo das experiências dos jovens amigos do profeta Daniel, somos provocados a trabalhar desde uma “integração entre bíblia e vida” que ajude o povo a interpretar a própria história à luz da fé, até a promover espaços em nossas comunidades de “escuta atenta à Palavra de Deus e o serviço aos pobres” unindo oração e ação, guiados pela Escritura.
A Iniciação à Vida Cristã (IVC) também é uma corda missionária muito importante. Nas DGAE, ela é colocada como “não sendo uma pastoral entre as outras” e nem um tema que diz respeito apenas à Catequese e aos catequistas. Mas, a IVC é o que une “toda a ação evangelizadora, pois visa formar os discípulos missionários”, sobretudo de forma permanente (DGAE, n. 110).
Essa catequese que tem inspiração catecumenal é urgente e necessária: resgata o valor batismal na vida de cada pessoa – família e catequizandos – e os introduz num caminho mistagógico de encontro com o Ressuscitado. É onde acontece o “alargar a tenda”. Após o povo de Deus ser deportado e exilado, o rei Nabucodonosor buscou formar jovens sadios, de boa aparência e inteligentes a fim de manipulá-los impondo uma outra cultura e jeito de viver. A resistência provocada pelo profeta Daniel realizada pelo diálogo e verdadeira escuta só foi possível porque ele tinha noção de sua identidade, de onde veio e o que ele e seu povo representam (cf. Dn 1, 1217). Este eixos, os caminhos da missão nas Diretrizes, ajudam-nos a resgatar esta identidade cristã e batismal.
Nas indicações pastorais, somos provocados a exercitar uma IVC em conjunto, assumindo a tarefa catequética que toda a comunidade é convidada a realizar nesta tenda. “Implantar formação permanente para catequistas” e envolver a família nesses processos para que os momentos com pais e padrinhos não se resumam a simples “curso para pais e padrinhos”, mas de verdadeiro “acompanhamento pastoral” (DGAE, n. 114).
Colocar no mesmo número as “cordas da” Liturgia e a Piedade Popular (LPP) é um dado histórico para as Diretrizes da CNBB, pois além de reconhecer as peregrinações e romarias dos milhares de fiéis que movimentam a fé simples e lotam os santuários do Brasil, o texto traz a Piedade Popular como um elemento de fé e ação missionária. O texto reconhece que “liturgia e piedade popular não são opostas, mas deve caminhar em harmonia” (DGAE, n. 128) além de que “a piedade popular conduz à liturgia, e a liturgia ilumina e purifica a piedade popular” (DGAE, n. 129).
O profeta Daniel é um modelo de oração e perseverança para os tempos atuais que atravessamos. Suas atitudes nos ensinam a amarrar bem estas cordas para que a lona da tenda fique bem esticada e amarrada com o nó na realidade. Ainda lança luzes para a prática das indicações pastorais que as Diretrizes nos trazem. Daniel alimentava uma rica espiritualidade com a prática da oração. Rezava três vezes ao dia e de janelas abertas (Dn 6, 11); rezava diante do perigo (Dn 2, 17-18) e praticava o jejum e se vestia de pano de saco (Dn 9).
Nas indicações pastorais, sobre a liturgia, o documento reforça o que as comunidades já vivem que é o valor e o respeito à vida litúrgica, “cuidar da arte de presidir” e “distinguir com respeito as expressões devocionais” que nascem das experiências do povo a fim de conferir “autenticidade e fidelidade à fé da igreja” “promovendo um caminho de conversão que impeça manipulações e distorções”.
O quarto ponto é sobre as Comunidades de Discípulos Missionários que resgata com louvor as provocações que a CNBB apresentou em 2014 no documento 100: Comunidade de Comunidades: uma nova paróquia. Aqui é relevante ressaltar o “espírito de comunhão, pertença e fidelidade” como nas primeiras comunidades cristãs. Nossas comunidades hoje, são chamadas a serem “igrejas de portas abertas, tendas sempre prontas a acolher quem busca um encontro com Cristo e deseja caminhar no discipulado missionário” (DGAE, n. 117).
Tal experiência evoca um importante caminho de conversão pastoral. Em Daniel, essa experiência é vivida, sobretudo pelos quatro jovens: Daniel, Ananias, Azarias e Misael. Sempre juntos, enfrentavam os desafios juntos, em alguns momentos rezavam juntos. Não vencemos sozinhos. Somos pessoas que se relacionam, homens e mulheres que vivem em comunidade e expressam a fé. Ninguém se salva sozinho e a fé só é bem vivida em comunidade. Mesmo Daniel sendo o único a ver a aparição do anjo, o anúncio de Deus é revelado a toda a comunidade (Dn 10, 7-10). Trabalhar esta ação, viver esta partilha de dons em nossas comunidades é desafiadora, sobretudo em contextos de individualismo e de isolamento, onde cada um insiste em buscar sua experiência espiritual isolado, mesmo estando dentro de uma comunidade como tenda.
A última “corda da missão” que esta “tenda-igreja” propõe é a do Serviço à Vida Plena. As DGAE reforçam o nosso compromisso com a dignidade da vida e que precisamos pedir perdão dos nossos pecados “contra a paz, a Criação, os povos, as comunidades, os migrantes, as crianças, as mulheres, os idosos, os pobres” (DGAE, n. 135).
O capítulo da jovem Susana, a mulher justa e fiel a Deus, diante do tribunal é pertinente para iluminar o nosso compromisso com a caridade da vida plena para todos e todas. Daniel evoca a sabedoria concedida a ele por Deus e convida o tribunal a dar clareza às evidências desmascarando os mentirosos que queriam condenar uma mulher inocente (Dn 13, 52-59). A violência contra a dignidade da mulher aqui é muito clara e reflete-se muito na nossa sociedade atual.
Profeta Daniel para um tempo em crise
O Livro do Profeta Daniel mostra que a fidelidade a Deus é possível mesmo em contextos de crise, pressão cultural, injustiça e enfraquecimento da identidade. Daniel e seus companheiros ensinam que uma comunidade fortalecida pela Palavra, pela oração, pela comunhão e pela coragem pode permanecer fiel e testemunhar a esperança.
Por isso, é muito importante que nossas lideranças, pastorais, movimentos, pequenas comunidades e famílias se disponham a ler, estudar e rezar os dois documentos: as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032 e o Livro do Profeta Daniel. A leitura conjunta permitirá perceber que as cinco “cordas da missão” — Animação Bíblica, Iniciação à Vida Cristã, Liturgia e Piedade Popular, Comunidades de Discípulos Missionários e Serviço à Vida Plena — não são propostas isoladas, mas caminhos concretos para fortalecer a vida comunitária.
Que Daniel nos ensine a permanecer firmes e que as novas Diretrizes nos ajudem a alargar a tenda, propondo mais espaços de acolhida, escuta e de diálogo com todos; estender a lona desta Palavra que é viva e eficaz, a fim de que sua luz seja, de fato, a que ilumina nossas estradas; esticar as cordas da missão e fincar as estacas em cada realidade concreta, desde as periferias das grandes cidades às realidades de pobreza que afetam nossas paróquias; e, assim, portanto, fortalecer os nós da missão e construir comunidades mais acolhedoras, bíblicas, eucarísticas, missionárias e comprometidas com a vida. Assim, a Palavra deixará de ser apenas um texto estudado e se tornará vida transformada e missão realizada.
Ir. Dione Afonso, SDN
Missionário Sacramentino de Nossa Senhora
@odionecomd | dioneafonsofaje@gmail.com



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