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Mês da Bíblia 2026: o Livro de Daniel e a IVC

  • Foto do escritor: Dione Afonso Rodriques Pereira
    Dione Afonso Rodriques Pereira
  • há 17 horas
  • 9 min de leitura

O que o profeta Daniel nos ensina sobre a Iniciação à Vida Cristã?



Em outra ocasião descrevemos como que o Mês da Bíblia deste ano pode ser um “terreno fértil” para a aplicação das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) 2026-2032. Partindo daquela proposta, neste artigo apresentamos algumas inspirações do Livro de Daniel que lança luzes para uma efetiva catequese no estilo da Iniciação à Vida Cristã (IVC). Segundo a DGAE, esta “propõe o querigma como o primeiro anúncio fundamental, capaz de proporcionar uma experiência de encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo a todos os que buscam um caminho para viver” (DGAE, n. 113). Tal intimidade com o Senhor só é possível ao proporcionar um encontro pessoal e comunitário com Ele e as Diretrizes ainda afirmam que isso é “um processo gradual, sistemático e permanente de amadurecimento na fé”, ou seja, não é algo que se conquista com um ciclo de dois anos de encontros e de momentos celebrativos e festivos. Se não penetrar na vida do catequista e dos catequizandos, nada feito.


Por isso, vem-nos o profetismo de Daniel, personagem principal do Mês da Bíblia deste ano. Na obra bíblica que ganha o seu nome encontramos elementos que são os marcos indispensáveis para uma catequese firme, verdadeira e que compreende que o querigma não é algo mágico e nem, tão pouco, sobrenatural: mas é um anúncio concreto sobre uma Pessoa real e um projeto de vida e de missão concretos. Para Daniel, este anúncio evidencia: 1. FORMAR identidade cristã; 2. PROFESSAR a fé fiel a Deus; 3. CRIAR vida de oração e, 4. TER postura cristã no dia a dia. Outras reflexões, talvez, possam apresentar outros elementos ou ainda ter uma ordem diferente para os atos. Para nós, o que vale, neste texto, é perceber que a Iniciação à Vida Cristã não é esta mera catequese formada de encontros em salas comunitárias e nem de momentos festivos isolados na paróquia. Vai muito além disso.

 


Querigma: falar de Jesus em voz alta

Ao questionar catequistas nos encontros de formação das mais diversas paróquias e comunidades, a gente ainda se assusta com a quantidade de lideranças que se engasgam, calam-se ou não conseguem responder com clareza o que é o querigma? Não que exista uma resposta pronta, fechada, direta e objetiva, mas há uma ideia concreta: querigma é falar de Jesus em voz alta com uma linguagem acessível capaz de despertar a fé e o desejo de um encontro pessoal com Ele. Muitos catequistas ainda não conseguem compreender esta tarefa e nem muito menos realizá-la. E sabe por quê? Porque eles próprios ainda não fizeram a experiência deste encontro que transforma a vida e nos provoca um novo jeito de ser e viver. Tal encontro nos coloca em contato com o Evangelho, faz-nos viver de acordo com os ensinamentos de Jesus e torna-nos, de fato, cristãos na sociedade como “sal da terra”; “luz do mundo” e “fermento na comunidade”.


Ao nos debruçar sobre o Livro de Daniel, percebe-se que o jovem profeta foi alguém iniciado na fé. Ele teve uma boa catequese, pois não foi capaz de negar seu Deus e sua religião para atender os caprichos de um rei opressor e idolátrico. A título de contextualização: Jerusalém é invadida, saqueada e o povo de Deus é exilado na Babilônia pela mão opressora do rei Nabucodonosor. A fim de fazer com que o povo passe a servi-lo, o rei manda que seus regentes escolham entre os filhos de Israel “homens jovens, de boa aparência, sem nenhum defeito, instruídos em toda espécie de sabedoria, práticos no conhecimento, gente de ciência...” (Dn 1, 4). Estes selecionados iriam aprender a língua, costumes, cultura, literatura e religião do novo rei. O fato de escolher os mais jovens para tal tarefa evidenciava a crença de que manipular e moldar os jovens seria uma tarefa mais fácil do que educar alguém já adulto, de cabeça mais antiga. Contudo, Nabucodonosor não esperava contar com a astúcia e a resistência de Daniel e seus amigos: Misael, Ananias e Azarias.


Quatro jovens muito bem-educados, sábios e que tiveram, em algum momento, uma boa Iniciação à Vida Cristã. Daniel percebe a maldade do rei e nega cumprir suas ordens. Claro que, desobedecer ao rei seria o mesmo que assinar a sua sentença de morte, mas aqueles quatro jovens tinham uma certeza muito grande de que fazer o certo era o caminho correto. Eles realizam um movimento de resistência, mas sem alarde, sem recorrer à violência e sem precisar alterar a voz. No diálogo, eles convencem o rei de que manter-se na própria cultura e crença não atrapalharia seus projetos. A confiança que os jovens depositam na fé que professam e no Deus de seus antepassados é uma grande lição para nós e tem muito a dizer sobre o nosso jeito de catequizar hoje.

 


Os passos da IVC inspirados por Daniel e seus companheiros

1. FORMAR identidade cristã – “aos quatro rapazes Deus concedeu o conhecimento e a compreensão de toda literatura e sabedoria. A Daniel especialmente, deu o dom de interpretar visões e sonhos” (Dn 1,17). Todo aquele que não possui uma boa base cristã, facilmente é moldado ou convencido por outras teorias e denominações religiosas, que, nem sempre são cristãs. O fato de ainda hoje muitos homens e mulheres ficarem “pulando de religião em religião” revela que nossas comunidades ainda não compreenderam que o centro do anúncio da fé é Jesus Cristo, nada mais e ninguém mais. Quando os quatro jovens são selecionados para cumprirem a ordem do rei, a primeira coisa que tentam fazer com eles é uma lavagem cerebral, tirando deles o próprio nome, “Daniel passou a chamar-se Baltasar; Ananias, Sidrac; Misael, Misac; e Azarias, Abdênago” (Dn 1, 7). Tirar o próprio nome significa excluir sua identidade, esquecer-se de sua origem e assumir um novo caminho. Neste caso, seria perder a própria identidade cristã e passar a servir a um novo senhor. Por isso que na IVC, o chamado Rito de Eleição tem sua relevância quando o catequizando/catecúmeno é anunciado pelo nome em voz alta. Inseridos na caminhada daquela comunidade, decidem confiar na graça de Deus, comprometem-se com a vida de oração e desejam tornar-se partícipes daquela comunidade. É o nome que os designa a tal caminho evangelizador.


O Rito de Eleição funciona como uma espécie de “ata de compromisso” daquela comunidade de acompanhar o catequizando/catecúmeno no seu processo de discernimento da fé. A comunidade é a verdadeira catequizadora daquele jovem que, chamado pelo nome, deseja iniciar seu caminho na vida cristã. O catequista é apenas um facilitador, alguém que vai apontando o caminho, orientando e caminhando junto com ele e com a comunidade, pois um dia, ele também foi chamado pelo nome.

 


2. PROFESSAR a fé fiel a Deus – “existe o nosso Deus, a quem adoramos, e que nos pode livrar da fornalha ardente, libertando-nos” (Dn 3, 17). Um dos elementos mais fortes no Livro de Daniel e que é testemunhado pelos quatro jovens é a confiança total e sem reservar a Deus, a ponto de isso ser algo inegociável na vida deles. Quando o rei os obriga a se ajoelharem e adorarem a sua estátua, eles não acatam a ordem e são jogados numa fornalha de fogo. Resistentes na fé e firmes em Deus, eles professam o nome do Senhor Deus de Abraão, Isaac e Jacó que os livra da morte. Isso revela que a catequese que tiveram não foi mera “preparação sacramental”, mas verdadeiro caminho de salvação guiado por Deus. Ainda hoje ouvimos catequistas lamurientos se questionarem “onde foi que errei?”; ou “o que eu fiz de errado com aquele jovem?”; ou ainda “crismamos tantos jovens e todos sumiram, o que vamos fazer?”... E é preciso continuar se questionando, porque, de fato, tem algo de errado com a nossa catequese. Tem algo de errado na caminhada comunitária. O processo não está acontecendo e ainda não conseguimos superar aquela catequese caduca e ultrapassada fechada dentro do salão da igreja e que não abre mão do seu horário de catequese porque o catequista julga aquele momento ser o mais importante do que a vivência comunitária.


Entre as etapas do processo da IVC, temos o da Purificação e Iluminação, que acontece durante o Tempo Quaresmal. Trata-se de uma preparação mais intensa, focada na espiritualidade, oração e conversão. Por isso, existem os escrutínios (muitos catequistas não sabem o que é), que só farão sentido se forem ritos celebrados dentro de uma pastoral de conjunto que funcione na vida paroquial. Catequistas, equipes de liturgia, canto e música, lideranças e os ministros devem sentar-se, conversar, e preparar estes momentos. Os escrutínios, na vida do catequizando/catecúmeno, possuem a tarefa de preparar o coração de cada um, expor suas fraquezas, pensamentos maldosos ou enfermidades e se abrir para a cura. Deixar que Deus cure o coração: isso é a conversão pessoal, por isso que se chama, “purificar”, quer dizer, extirpar os seus pecados e “iluminar”, converter-se a se comprometer a um caminho novo, diferente.

 


3. CRIAR vida de oração – “Daniel, três vezes por dia se ajoelhava ali para rezar e louvar a seu Deus, e assim fazia sempre” (Dn 6, 11). A oração, na vida de Daniel não era apenas uma regra cristã. Ele não rezava só porque a igreja orientava, mas rezava porque isso era parte de sua vida, integrava o seu dia, era parte de sua identidade. Uma vida sem prática de oração seria uma vida vazia de sentido, de direção, de Deus. A Iniciação à Vida Cristã precisa resgatar em nossos encontros de catequese uma espiritualidade mais profunda. O catequista precisa caprichar nos momentos de oração, as vezes isso é a única coisa que fica na memória de um jovem durante todo o encontro. Mas, se o catequista reza de qualquer jeito, se ele reza rápido porque tem muita coisa pra ensinar... a oração vai ficando em segundo plano e a caminhada cristã daquele catequizando fica comprometida. O encontro com Jesus perderá sua necessidade e a catequese não passará de mero cumprimento ordinário do dia. Ter uma vida de oração pode ser a resposta para atravessarmos este tempo que estamos vivendo. No meio de tanto barulho, tanta rede social, tantos celulares, tantos feeds, tantas trends que vão sendo criadas, se a catequese e a comunidade não proporcionarem espaços e momentos de espiritualidade, oração e silêncio, onde encontraremos isso?


Entre os tantos desafios que a Catequese enfrenta hoje, está o de envolver a família no processo. Trilhar com os pais e padrinhos. Infelizmente, hoje a maioria dos catequistas só se lembram dos pais e padrinhos quando precisam convocá-los para uma reunião em que a pauta é discutir a data do sacramento, o preço da vela, da lembrancinha e da camisa. Isso quando na pauta não tem aquele item que serve para chamar a atenção dos pais a respeito da presença do filho nos encontros. Onde está a espiritualidade? Quantas vezes você catequista se preocupou em preparar um encontro de catequese com a família toda? Quantas vezes você catequista preparou uma manhã de retiro e espiritualidade com os pais dos seus catequizandos? Quantas vezes você catequista visitou as famílias de seus catequizandos? A gente começa a perceber que o fato de os pais não caminharem com a catequese pode não ser uma falha exclusiva deles.

 


4. TER postura cristã no dia a dia – “os sábios brilharão como brilha o firmamento, e os que ensinam a justiça brilharão para sempre como estrelas” (Dn 12, 3). A resposta final que o Livro de Daniel deixa para nós é que uma catequese bem-feita, bem-preparada e inspirada no processo catecumenal da Iniciação à Vida Cristã proporciona resultados mais positivos para a vida comunitária e paroquial. Claro, temos que ter em mente que tudo isso são processos. E processos levam tempo. Processos exigem maturação humana e cristã. Processos só se iniciam onde há pessoas dispostas e corajosas a encarar o novo. Como nos ensina o Documento 107 da CNBB, sobre a IVC, “a Iniciação à Vida Cristã requer novas disposições pastorais; exige perseverança; pede de nós docilidade à voz do Espírito; abre-nos à sensibilidade aos sinais dos tempos e provoca escolhas corajosas e paciência” (n. 09). Nas novas DGAE, entre as indicações pastorais, o número 115 destaca “assumir a vida cristã como caminho de crescimento e amor, reconhecendo que educação e catequese servem a esse processo contínuo”; “fazer da catequese um espaço de diálogo” e aperfeiçoar cada vez mais esta “catequese de inspiração catecumenal”, “integrar celebrações com os encontros” e “organizar itinerários formativos para toda a comunidade, especialmente para agentes de pastoral para que vivam a IVC”.


O profeta Daniel deixa para nós um exemplo de vida cristã pautada na oração cotidiana e na fidelidade a Deus. Este estilo de vida cristã pode contribuir muito para o nosso tempo atual em que estamos mergulhados em crises, desafios e dilemas sociais como o individualismo, a cultura do ódio e esse culto exagerado ao corpo perfeito. Para Daniel, a oração fortalece a nossa vida de comunidade e enriquece nossa experiência com Deus. Seu recado é: não negocie aquilo que para você não tem preço, a sua fé, seu Deus.





Ir. Dione Afonso, SDN

Missionário Sacramentino de Nossa Senhora

 
 
 

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