Um ano de Leão XIV em nome da paz e da unidade eclesial
- Dione Afonso Rodriques Pereira
- 28 de mai.
- 4 min de leitura
Atualizado: 4 de jun.

“Nele, somos um” – um lema, inteiramente agostiniano e profundamente cristológico. Nele se reflete o desejo por uma eclesialidade una, centrada no Cristo, como Cabeça da Igreja. A 08 de maio de 2025, no findar daquela tardinha, em Roma, a fumaça que se dissipava, no topo da Capela Sistina era branca: anunciava o aguardado Habemus Papam! O cardeal do Peru, Robert Francis Prevost foi o escolhido para guiar o povo de Deus depois dos 13 profícuos anos do Magistério do Papa Francisco. Nascido norte-americano, em Chicago, Prevost possui um coração latino-americano, de onde bebeu das fontes de uma fé libertadora e de experiências de pequenas comunidades eclesiais de base durante sua longa vida missionária como bispo no Peru, em Chiclayo.
Com uma personalidade mais discreta e tímida; ao surgir, pela primeira vez, diante da Praça São Pedro lotada de fiéis, segura um choro emocionante. Este gesto já revelava que o novo papa seria mais moderado, de expressões ponderadas e, o discurso revelava um estilo próprio de pensar, falar e, consequentemente, de agir. Enquanto Francisco inaugurou um pontificado de quebras de protocolos, gestos que inauguravam algo que nunca nenhum outro papa havia feito, Leão XIV optou pela modéstia, com ações mais introspectivas e preocupações voltadas para o interior.
Diferente, mas convergente
É inevitável não nos depararmos com artigos e opiniões de especialistas e outros influenciadores, relatando como que a igreja reagiu aos primeiros 12 meses do pontificado de Leão XIV. Contudo, é necessário muito discernimento para que não caiamos na armadilha da comparação: Leão XIV não é Francisco! E nem pode ser. E se fosse, não teria sido eleito papa. Leão XIV é a continuidade do que Francisco começou; que por sua vez é um recomeço do que Bento XVI indicou... e assim, sucessivamente. Papa Leão se difere em sua personalidade, estilo, linguagem até no pensar... Mas, sua proposta evangelizadora converge com os sonhos que Francisco protagonizou: a sinodalidade na igreja; a fraternidade entre os povos; o diálogo geracional; a amizade social.
Preocupado com o fortalecimento institucional da Igreja e em levar adiante a reforma interna que Francisco iniciou, o estilo, a vestimenta, as celebrações centrais – como o Lava-Pés que provocou burburinhos em nossas paróquias – apontam para uma mudança significativa de seu papado. Longe de simbolizar um afastamento do povo, Leão XIV preocupa-se, antes, com o fortalecimento interno das relações. Seu agir indica que é preciso cuidar do interior, cuidar da forma como tratamos nossos irmãos de missão, cuidar do clero, estar próximo de quem precisa aprender o que é ser próximo dos outros. Para depois lançar-se para fora, ir ao povo, visitar os fiéis e estar pronto para ouvi-los.
Os pilares do pontificado de Leão XIV parecem convergir com o caminho que Francisco apontou. “Construir pontes” – expressão do Magistério anterior – é o desejo que Leão XIV expressou no dia de sua eleição e que fez ressoou, principalmente em sua viagem apostólica no continente africano, a primeira internacional. Foi neste período que o “duelo” insistente entre ele e o presidente dos EUA se intensificou. Diante deste cenário, foi significativa a postura firme e sensível do papa ao defender “uma paz desarmada e desarmante”; opor-se contra a guerra e escolher o lado oposto do líder norte-americano.
Um papa agostiniano
Não podemos concluir sem antes mencionar as raízes agostinianas que permeiam o pensamento e coração do Papa Leão XIV. Assim como Francisco era jesuíta e mantinha seu itinerário inaciano muito presente em sua missão, agora, Santo Agostinho torna-se a nova luz orientadora para os passos do papa. Leão XIV, vocação agostiniana, busca em seu Fundador inspiração para suas reflexões, homilias, mensagens e revela uma espiritualidade muito rica e profunda. Seu desejo pela paz, pelo diálogo é entendida como uma condição necessária em todas as dimensões: seja pessoal, familiar, religiosa e social. Em 18 de maio de 2025, em sua homilia que inaugurou seu pontificado, ele expressou seu desejo de “construir uma igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que torne fermento para um mundo reconciliado”.
Em sua visita à Angola (Luanda), o papa exortou os angolanos a não abrir mais da sua identidade, a construir o país segundo a lei da caridade. “Na base do vosso agir, está o ser discípulo de Cristo. Cabe a todos vós ser sua imagem e ninguém vos pode substituir nesta tarefa. Aqui reside a vossa singularidade”. Concluímos este breve artigo ressaltando o que se espera dos próximos passos: estamos ansiosos à espera de seu primeiro documento doutrinal. A sua primeira encíclica deve estar a caminho e a partir dela teremos mais clareza do que esperar deste pontificado. Como ele próprio afirmou: seu nome “Leão”, aponta para Leão XIII – um papa que viveu um importante período de revolução. Tempo que o mundo (e a Igreja) precisava se adequar ao advento da Modernidade. Agora, Leão XIV acredita que também enfrenta uma revolução, a tecnológica com a chegada abrupta da Inteligência Artificial que, também, a Igreja e o mundo precisam se preparar.
Ir. Dione Afonso, SDN
Missionário Sacramentino de Nossa Senhora
@odionecomd | dioneafonsofaje@gmail.com



Comentários