Pe. Júlio Maria de Lombaerde: virtuoso e venerável
- Dione Afonso Rodriques Pereira
- 18 de jun.
- 7 min de leitura

Pe. Júlio Maria De Lombaerde (1878-1944), nascido europeu, foi um missionário que dedicou toda a sua vida e sua consagração a Deus às missões em terras brasileiras, sobretudo na “temível Amazônia”, como era conhecida a região tropical do Brasil naquele tempo. Enviado em nome dos Missionários da Sagrada Família, junto com outros cinco coirmãos, em 27 de fevereiro de 1913, eles chegam a Macapá-AP a fim de trabalhar a evangelização na Amazônia. A presença do Pe. Júlio Maria revolucionou aquele lugar e tornou-se notícia, mais tarde, em quase todo o país. A Amazônia tornou-se para ele, não só um lugar de missão, mas sua própria casa, um lar no qual ele se apaixonou a ponto de dizer “eu quero a Amazônia!” (De Lombaerde, p. 344).
Em 24 de janeiro de 2015, a Diocese de Caratinga-MG, reunida com as três Congregações Religiosas que Pe. Júlio Maria fundou – Filhas do Coração Imaculado de Maria (FCIM), em Macapá; Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento e Irmãs Sacramentinas de Nossa Senhora, ambas em Manhumirim-MG – abriram o Processo de Beatificação e Canonização do “santo fundador”. Uma caminhada que se reflete num desejo latente entre o povo, devoto do Pe. Júlio Maria e entre seus “filhos e filhas consagrados” das três congregações que já reconhecem no coração e na prática missionária a santidade de um homem virtuoso que serve de exemplo e testemunho evangélico para todos nós. Agora, 11 anos depois, Pe. Júlio Maria De Lombaerde recebe o título de Venerável, comprovando ser intercessor de milagres e digno de fé junto de Deus em comunhão com seu povo.
Amazônia brasileira: terra fértil das virtudes cristãs
Torna-se válido aqui, transcrever os primeiros sentimentos do Pe. Júlio quando foi notificado sua transferência da Europa para o Brasil. Assim ele relatou em seu Diário Missionário: “A nomeação para o Brasil rompeu a minha carreira de pregador de missões e de escritor... Fiz a Deus o sacrifício de minha vida e lancei-me com confiança nos braços da sempre querida Mãe” (De Lombaerde, p. 36). Como ressaltamos, naquela época era de conhecimento comum na Europa e outros países fora da América do Sul que, vir para o Brasil era sinônimo de tragédia, castigo e até morte. Portanto, quando lemos, no Diário do Pe. Júlio, expressões como “fiz o sacrifício de minha vida”; ou, “adeus para a vida, talvez”; ou ainda, “morrer por Deus é viver eternamente; é trocar o país do exílio e das lágrimas pela pátria da felicidade e da visão sem véu” (Id., p. 33), por mais que reconheçamos a virtude da entrega, da confiança a Deus e da fé, ressalta o retrato de uma época condizente com o que a sociedade acreditava ser o Brasil.
Mas é justamente nesta Amazônia, “temida” e “amada” ao mesmo tempo, que aqueles missionários encontram a razão da própria fé; o sentido e o motivo da missão e terra fértil para que suas virtudes prosperem e se concretizem na vida própria e na das pessoas que por eles forem catequizadas. O título de “venerável”, neste processo de beatificação e de canonização é determinado após uma profunda investigação de um dossiê sobre o candidato – com seus escritos e testemunhos. Se o papa aprovar o decreto que reconhece, a partir destes documentos, que o candidato viveu de forma heroica a prática das virtudes – ou, em alguns casos, do martírio – ele é reconhecido pelo Vaticano e passa a ser chamado de Venerável Júlio Maria De Lombaerde. Este “degrau de santidade”, antecede o título de Beato, que por sua vez, o de Santo.
Reconhecer o Pe. Júlio Maria na Amazônia como uma presença virtuosa é algo que merece nossa atenção, pois é neste solo brasileiro, onde muitas pessoas, que, segundo o missionário, eram “católicas pelo batismo, mas na prática, é o único elo que os prende à religião cristã [...]. Poder-se-ia chamá-la de uma religião transmitida por tradição. A ignorância é completa” (De Lombaerde, p. 118). Justamente, é com estes desafios que a evangelização daquele tempo exigia dos missionários recém-chegados da Europa uma postura evangelizadora. O Pe. Júlio Maria, em momento algum viu o Brasil como terra sem futuro e nem desprezou o povo brasileiro, pelo contrário, ele reconhece que aqui há um potencial poderoso para o crescimento da fé cristã. Um homem que diante das provações e das dificuldades, encontra em Deus o sentido de sua vida e de sua vinda para cá, soube amar cada pessoa que dele se aproximava, desde uma criança que doava para a Virgem Maria sua medalha (Id., “a história do pequeno João de 9 anos”, p. 155 a 158) até um senhor de idade que caminhou 300 km quilômetros a pé, para ter com o padre a sua confissão (Id., “a confissão do velho de 70 anos”, p. 165-166). As virtudes teologais – fé, esperança e caridade – são vividas pelo nosso “pai fundador” com esmero e sinceridade de coração diante de cada gente que dele carece de atenção.
O “santo de ontem” que nos catequiza no hoje
O Venerável Júlio Maria De Lombaerde viveu num tempo muito diferente do nosso. Hoje estamos lidando com outras questões – morais e éticas –, com desafios na evangelização que carecem, cada vez mais da nossa atenção e de nossa seriedade com o seguimento a Jesus Cristo. Ler o Pe. Júlio Maria para este tempo é relevante e crucial, pois ele nos ajuda a resgatar valores e virtudes que são essenciais para a formação e o desenvolvimento integral da pessoa humana. Não se trata de aplicar seus conceitos e escritos nos processos de evangelização, isto é anacronismo e retrata uma falta de consciência crítica e de fé, de nossa parte. Por outro lado, o “missionário venerável” possui um tesouro carismático e teológico que pode se tornar eficaz nos nossos processos evangelizadores que enriquecem a ação missionária.
O primeiro deles é perceber o que é essencial para a vida humana e que as pessoas de hoje estão barganhando com outros elementos dispensáveis. Papa Francisco, durante o seu magistério, insistiu na cultura do encontro e na recuperação da fraternidade. Para ele, vivemos em guerra porque as pessoas se esqueceram de que são irmãos e irmãs uns dos outros, e, quando perdemos este valor, instauramos a globalização da indiferença, em que “a dor do outro não me diz mais respeito” (Francisco, 2013). O Papa Leão XIV tem provocado em nós um movimento de resgate no ambiente educacional. Ele afirma que é um ambiente “complexo, fragmentado e digitalizado” e que através do Evangelho, devemos voltar a acreditar nas “constelações educativas” que valorizam “as experiências humildes, ao mesmo tempo fortes e capazes de ler os tempos” (DNME, n.1.2). Hoje, o que assistimos são famílias que abrem mão de um processo integral de uma educação básica, comprometendo as novas gerações que estão chegando sem um pensamento crítico aprofundado e frágeis no campo da leitura e da escrita.
A centralidade da pessoa humana nos processos e nos projetos. Parece algo irreal, mas atualmente vivemos ancorados numa cultura do fazer que deteriora o conceito de pessoa humana reduzindo-a a objetos simplesmente comerciais e de troca. É a cultura do descartável, na qual o outro só é importante para mim enquanto produz, enquanto me é útil. As provocações de Byung Chul-Han em Não-Coisas, refletem sobre este dado social: “a conexão digital total e a comunicação total não facilitam o encontro com o outro” (Han, 2024, p.10). Vivemos à base de curtidas e likes e de bloqueios e “instants”. Acumulamos curtidas nas redes sociais, mas não nos aprofundamos em nada. O Venerável Pe. Júlio Maria não viveu nos tempos da internet, mas já no seu tempo, ele valorizava o ensino e a educação básica como motor responsável para o desenvolvimento humano. As horas que ele se dedicava à oração não eram diferentes das que ele se dedicava aos estudos e à escrita. Ele se preocupava com as poucas pessoas que tinham algum nível de alfabetização em suas missas, portanto, nasce o desejo de catequizar o povo a fim deles obterem algum grau mais elevado de compreensão até mesmo da própria fé que professavam (De Lombarde, p. 188-190). E o que assistimos hoje? Quanto tempo que nossos jovens dedicam aos estudos? Em tempos de IA, ChatGPT, Google Gemini, Grok tenho me preocupado com a leitura e a escrita ou transfiro minhas responsabilidades aos aplicativos tecnológicos?
O trabalho vocacional
Assim, como relegamos a nossa formação e os estudos às máquinas tecnológicas, as muitas Congregações de hoje precisam lutar contra a tentação de transferir a “responsabilidade vocacional” para tais tecnologias. Quando o Pe. Júlio Maria De Lombaerde chegou a Macapá, lá ele percebeu uma profunda carência de padres e religiosos que pudessem atender melhor o povo que lá estava. Fica evidente no Diário Missionário que os missionários vindos de fora ainda eram insuficientes e que a Europa precisava enviar mais, pois “as vocações nesta terra não existem” (De Lombaerde, p. 343). Diante deste retrato religioso no Brasil, Pe. Júlio Maria começou a propagá-lo, tentando motivar outros missionários europeus para as missões na Amazônia. Sua propaganda vocacional era objetiva, recheada de amor e de alegria pelo Brasil. Era difícil ouvir suas palavras e não se sentir motivado a se unir a ele. O venerável, portanto, ensinou um dos mais eficazes serviços de animação vocacional: o ser presença! Ser e viver entre as pessoas. Ser reflexo de um “Cristo comum”, mas profundamente humano e cristão. Ser presença mariana, ter Nossa Senhora como direção, caminho. Ser presença viva eucarística. Eis a sua propaganda vocacional! Todos os que o viam, sentiam o desejo de “ser também”, como ele...
Contudo, não era fácil convencer outros religiosos a embarcarem numa missão para a Amazônia. Portanto, veio a célebre decisão: uma Congregação que se iniciou com três jovens mulheres (Id., p. 496). E que foi crescendo no interior de Macapá, ganhando destaque e sendo reconhecida pelo povo. O trabalho vocacional do Pe. Júlio Maria partia exclusivamente de seu testemunho de vida, seu amor pela missão, respeito pelo Sagrado e por Nossa Senhora e confiança unívoca a Jesus Cristo. Pe. Júlio Maria entendia que ser presença amorosa e evangélica entre o povo era o que o encantava e o que despertava outros para uma vocação específica. Que não caiamos na tentação do fazer, em detrimento do ter. Que não cedamos às IAs generativas o papel de uma propaganda vocacional que é bonita, colorida, mais bem produzida, mas vazia de humanidade e que diz pouco sobre o que queremos difundir. Diz pouco sobre a nossa Congregação e pouco sobre o Carisma. Por mais avançadas que sejam as tecnologias, elas nunca poderão dizer o nosso Carisma e nem a espiritualidade.
Na recente Carta Encíclica do Papa Leão XIV, ele deixa claro que “são as pessoas que contam” (MH, n.58), muito mais do que elas fazem ou do que as máquinas tentam imitar de nós, humanos. Lembrem-se sempre: o que a IA produz pode até ser melhor do que o você faz; mas os afetos, as virtudes o amor e o sacrifício ainda é algo que apenas a pessoa humana é capaz de sentir. Isso a IA nunca irá tirar de nós!
Ir. Dione Afonso, SDN
Missionário Sacramentino de Nossa Senhora
@odionecomd | dioneafonsofaje@gmail.com



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