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Quando o coração fala ao coração

  • Foto do escritor: Dione Afonso Rodriques Pereira
    Dione Afonso Rodriques Pereira
  • 28 de mai.
  • 4 min de leitura


Conheci o Ir. João da Silva Resende, SDN na virada dos anos 2000. Na ocasião, o Mobon, imbuído na caminhada da Igreja, trabalhava em sintonia com o Projeto Nacional de Evangelização “Queremos ver Jesus: Caminho, Verdade e Vida”, instituído pela CNBB através do Doc. 72. A proposta pastoral mirava rumo ao 3º milênio, que se despontava no horizonte com novos desafios, urgindo outras urgências pastorais.

Evoco este contexto de Igreja a fim de enaltecer uma figura que muito tem falado a mim, às vezes sem articular o som da voz. Ir. João é uma figura que muito tem tocado os corações daqueles que param para o escutar. É alguém que, nos seus 85 anos de vida, contabilizando 65 de Vida Religiosa Consagrada, mantém sua consciência íntegra, de ideias claras e trabalhando em prol de construir no povo um sentimento de história e pertencimento. Ir. João acredita na força do pequeno, para ele, fortalecer a base, insistir nos pequenos grupos, acreditar no fraco, no pobre, no simples, é o caminho certeiro para um bom projeto de missão em nossas comunidades. E na vida também.

 


Dar tempo para o coração

Ir. João é um homem silencioso, mas que no silêncio nos enriquece com as “coisas que ele tira do próprio coração” e partilha conosco. Este devaneio prolixo que chega a vós, nasce de uma intenção sincera e de coração: notar o quanto estamos nos afogando numa enxurrada de reuniões, compromissos, viagens, trabalhos pastorais, atividades burocráticas, vida paroquial, por vezes entediante e excessiva de atendimentos ao povo, fazeres administrativos que nos desgastam, reformas de templos estressantes... e... às vezes... não paramos para prestar atenção nos outros. Nisso, percebemos que corremos o risco até de nos esquecermos de figuras significativas que fizeram diferença no começo da nossa jornada. Quem são aquelas pessoas que marcaram a sua história? E, que, mesmo ainda vivos, talvez, não tem parado para escutá-los e relembrar das experiências daquele tempo que dão tom ao que hoje se tornou?

Nosso irmão João Resende é um Missionário. E, mais do que isso é um Sacramentino e devoto de Nossa Senhora. Tudo o que faz, suas ações, seu jeito de viver, refletem a beleza e a identidade de um missionário que se deixou marcar pela eucaristia. E a Eucaristia é movimento. Ela nos move, partindo do coração de Jesus, às experiências humanas de cada um. Talvez esteja aí o sentido do ser “tomado – partido (triturado) – e doado” para a vida plena do Reino. O Servo de Deus Júlio Maria De Lombaerde dizia que “quando um coração eucarístico penetra num coração humano; isto é uma revolução”. Aceitar este ato revolucionário contribui para que não nos esqueçamos do coração. É dele que sai o que há de melhor em nós.

Lembremo-nos do britânico São João Henrique Newman, proclamado por Papa Leão XIV o mais recente Doutor da Igreja. Seu lema episcopal era “cor ad cor loquitur” – “coração fala ao coração”. Conhecido, dentre outros méritos, como o “doutor das coisas do coração”, o santo se preocupava com temas que se referiam à consciência de cada pessoa, pois para ele, ela “é o lugar por excelência da relação com Deus”. Ele dizia que “viver com o coração é a maior graça que podemos alcançar! Fora do coração não há consciência e nem mesmo verdade”.



Introspecção e extrospecção

Nos primeiros dias do mês de março de 2026, a Conferencia Episcopal Española, através de sua Comision para la Doctrina de la Fe, publicou uma nota sobre o papel das emoções no ato de fé. Para ser mais claro, o texto ressalta a preocupação daquela Igreja Local, representada pelos seus pastores, diante dos “novos métodos ou ferramentas de evangelização” levar a chamada “Geração Z”, os “nativos digitais” se aventurarem às experiências da fé com o “risco de uma redução ‘emotivista’ da fé, que leva muitas pessoas a se tornarem consumidoras de experiências impactantes e buscadoras insaciáveis de gratificação espiritual”.

Esta preocupação sempre esteve presente no coração do Missionário Sacramentino, Ir. João Resende, SDN. E quem vos fala isso, é alguém que testemunha seus sentimentos, pois Ir. João sempre acreditou na força jovem da Igreja; sempre se preocupa em como o que que ele fala e transmite aos outros pode ser capaz de atingir, tocar o jovem. O texto dos bispos da Espanha ressalta que essas novas forças tecnológicas e os novos movimentos que desabrocham na Igreja são portas que se abrem à criatividade para a nossa ação pastoral, contudo, não podemos cair no abismo da efemeridade. Tirar os pés do chão e perder as raízes da fé. “Introspecção e extrospecção” – diz Ir. João – “introspectar – perdoem-me o neologismo, quer dizer, olhar para dentro; voltar sua atenção para si mesmo; buscar no coração o que sente para assumir novas perspectivas – extrospecção; olhar o mundo lá fora com os olhos do coração”, a fim de poder agir com mais intensidade, sensibilidade e amor.

Esse movimento reflexivo que Ir. João defende está sintonizado com a nota dos bispos espanhóis – ambos buscam e acreditam que esses sinais dos tempos que a pós-modernidade apresenta a nós é “um apelo para resgatar a importância dos sentimentos e integrá-los, sem diminuir a razão, na vida cristã”. Portanto, é preciso introspectar mais, buscar mais o coração, cuidar da consciência para que, em nossas extrospecções, possamos revelar o coração aos outros, cuidar das nossas experiências de fé, regar as raízes de nossa história para que não caiamos nas armadilhas das belezas e facilidades que os novos avanços nos apresentam. É preciso acompanhar sim, a evolução dos tempos, mas sem perder o que cabe somente ao coração decidir. A IA está aí a nos desafiar...

 
 
 

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