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Por uma Ecologia da Comunicação: a Magnífica Humanidade aos cuidados de Leão XIV

  • Foto do escritor: Dione Afonso Rodriques Pereira
    Dione Afonso Rodriques Pereira
  • 28 de mai.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 4 de jun.



Com pouco mais de um ano de pontificado, Leão XIV lança sua Carta Encíclica que “desenha” seus passos e a profunda intenção em colocar os cuidados a respeito da pessoa humana no centro de seu discurso pragmático. Geralmente, o primeiro documento de um pontificado é responsável em apresentar o “programa de governo” de um papa. Magnifica Humanitas, lançada 135 anos depois da Rerum Novarum, apresenta esta tarefa e, assim como seu antecessor Leão XIII enfrentou uma Grande Revolução e tentou guiar a Igreja na transição da Era Moderna, agora, o novo papa se dispõe em guiar-nos numa nova revolução: a Era da Inteligência Artificial. “Hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua Doutrina Social para responder” à revolução dos “desenvolvimentos da IA, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”, afirmou o papa dois dias após a sua eleição.

Distribuída em cinco capítulos, a Encíclica faz um perfeito resgate histórico apresentando o tesouro e os contributos que a Doutrina Social da Igreja tem realizado no decorrer dos anos. O papa destaca os 5 princípios da DSI – bem comum; destinação universal dos bens; subsidiariedade; solidariedade e da justiça social – e os aplica na condução de uma evangelização que promova o desenvolvimento integral da pessoa frente os desafios da IA. “São as pessoas concretas que contam; cada uma delas” (cf. MH, n.58) e, para que estas pessoas compreendam não só os riscos, mas as maravilhas das tecnologias, a nossa “bússola” para uma “presença evangélica” é o próprio Evangelho; é Jesus Cristo (cf. MH, n.230)! Ao concluir, Leão XIV não hesita em questionar modelos que hoje não aprofundam e nem defendem a integralidade humana, como a falta de profissionalismo nas escolas e com os profissionais da educação; a normalização da guerra; o valor do trabalho e a falta de uma “política melhor”, ancorada no valor da verdade.


 

De Babel para uma Jerusalém “nova”

Ao reconstruir as ruínas de Jerusalém após o exílio, Neemias organiza o povo e promove a sua participação para que a construção da cidade seja realizada por todos, caminhando juntos rumo a uma “nova cidade” (cf. Ne 2, 17-18). Para trabalhar nesses tempos de inovação tecnológica e abraçar os desafios por uma formação integral humana, é preciso superar as tentações de uma “torre de Babel” que nos leva ao individualismo, ao abuso de poder e à vigilância e manipulação. “Entre um poder que pretende dominar o céu ou um povo reunido que começa a reerguer os muros da convivência fraterna” (MH, n.9), somos chamados a evitar a “síndrome de Babel” que nos leva a “idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos” (MH, n.10). O “caminho de Neemias” nos ajuda na reflexão sobre o “valor do trabalho conjunto”; a “pluralidade de vozes e visões”; a ver a “diversidade como um recurso” que valoriza o diálogo e a escuta; na “justiça e fraternidade”.

Assim como numa obra é preciso tomar as precauções para que tudo seja realizado com segurança, os princípios da Doutrina Social servem como “guias” que nos ajudam na construção de uma “cidade” mais participativa, construída em conjunto, com a participação de todos, sinodal. Não se trata de uma releitura dos princípios da DSI a fim de aplicá-la no trabalho reflexivo a respeito das IAs, mas, é o esforço de um significativo resgate do que a Doutrina Social sempre exigiu de nós que diz respeito à aplicação concreta dos valores do Evangelho nessa construção da integridade humana e de seu pleno desenvolvimento. “Num mundo em que poucos sujeitos concentram dados”, “falar de bem comum, significa desmascarar esta nova assimetria epistêmica, econômica e política”; “falar de destinação universal dos bens significa encontrar formas de garantir o acesso universal às tecnologias e à formação”; “falar de subsidiariedade é pedir que se proteja a capacidade das comunidades escolherem e corrigirem, sem relegar a sua intervenção a uma mera vigilância”; falar de solidariedade obriga a reconhecer o trabalho invisível, frequentemente explorado, que alimenta os modelos algorítmicos”; “falar de justiça impõe questionar as geografias do poder que definem quem pode treinar e quem é apenas objeto de treino” (MH, 109).

Ao erguer esta nova cidade, os pilares da nossa construção se fortalecem sobre uma única palavra: DESARMAR! “Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada” que, além de militar, ela é econômica e cognitiva. Que não caiamos nas tentações que os mitos a respeito do “pós-humano”, “do transumanismo” dizem nos proporcionar. O ser humano não é algo que precisa ser superado, “se o ser humano for tratado como matéria a aperfeiçoar ou a ultrapassar, é então mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, desejáveis e dignos” (MH, n.117). E isso é um erro! É se submeter a uma “nova Babel”, onde apenas quem está no topo é detentor de todas as maravilhas e inovações e quem está abaixo dele não passam de meras marionetes controladas de acordo com seus desejos.


 

“Nova Cidade” para “novos cristãos”

Eis o humanismo cristão! “o humanismo cristão não rejeita a ciência e a técnica”, mas as acolhe com os pés no chão. Portanto, em nossa ação pastoral é imprescindível nos questionar se nossa interação com o usa das IAs contribui para que sejamos mais ou menos humanos. A grande questão a respeito do uso e do trabalho junto às tecnologias sempre será esta: a IA está me ajudando a tornar as pessoas mais dignas humanamente? Olhando para nossas realidades paroquiais, o uso da IA no trabalho com a Pascom, e nos perfis de nossas redes sociais humanizam os fiéis? “Se a resposta for sim, então podemos reconhecer nela uma possibilidade a ser vivida com responsabilidade, num caminho de reconstrução paciente e partilhada” (MH, n.129), assim como foi reconstruído a nova cidade narrado no Livro de Neemias. Mas, se a resposta for não, “o poder cresce enquanto o coração seca e os laços se rompem”, e, portanto, estaremos diante de uma nova forma de Babel: “uma construção grandiosa, mas desumana” (MH, n.129).

A transformação digital que estamos atravessando, encontra na Doutrina Social da Igreja os aportes necessários para que a ação pastoral em nossas paróquias e comunidades possam redescobrir o valor da integralidade humana e trabalhar corajosamente em nome de um desenvolvimento mais integral, mais humano e verdadeiro. Portanto, nossa primeira tarefa consiste em “não demonizar e nem idolatrar os instrumentos” (MH, n.137), poisa verdade é um bem comum e não propriedade de poucos. Ela é o cimento desta nova construção. Na nova cidade é a verdade que dá liga e suporta as vigas de ferro e os tijolos. Em segundo lugar, é preciso trabalhar urgentemente por uma educação digital inclusiva e participativa. “Educar para o uso da IA implica educar para decidir quando e em que situações não a utilizar” (MH, n.140). Recuperar o papel da centralidade das escolas que sofrem desafios imensos quando o assunto é as tecnologias. É preciso acabar com esta cultura da falta do pensamento crítico. Enfrentamos desafios sociais, pedagógicos e intelectuais em que “se não estivermos atentos, formaremos um sistema educativo desprovido de amor e de verdade” em que a velocidade e a quantidade exagerada de informações substituirão o exercício da interpretação aprofundada, da investigação crítica e da reflexão e discernimento (MH, n.146).

Prestemos atenção às nossas palavras! Para o papa, “o poder das palavras é enorme”. Ele resgata o que já havia dito aos comunicadores do Vaticano: “A paz começa em cada um de nós: na forma como olhamos para os outros, ouvimos os outros, falamos dos outros” (MH, n.214). Portanto, “devemos fazer, todos nós, um exame de consciência sobre as palavras que usamos, sobre os preconceitos de que estão impregnadas e sobre a agressividade, que nelas habita”. A “síndrome de Babel” é o retrato da não-comunicação: detém um grande poder nas mãos de poucos; sustenta-se pelo medo; apoia a guerra e sacrifica os vulneráveis. Luta pela uniformidade que anula as diferenças e erradica toda e qualquer forma de participação. Mas, comunicar é vocação, porque inerente à pessoa humana. Por uma “comunicação desarmada e desarmante”, construtora da paz (n.215); dando voz aos que sofrem (n.216); sendo autênticos e realistas (n.218); praticando o diálogo (n.219).

Que todos nós “arregacemos as mangas para realizar os bons projetos” (cf. Ne 2,18b) que temos pela frente em nome da formação integral da pessoa.





Ir. Dione Afonso, SDN

Missionário Sacramentino de Nossa Senhora

@odionecomd


 
 
 

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