Os Ritos Celebrativos da IVC: viver para ser igreja

Há uma profunda e rica eclesialidade dentro deste itinerário catecumenal. Resgatado pelo Concílio Vaticano II, o RICA – Ritual de Iniciação à Vida Cristã –, publicado em 1972, pós Vaticano II, recupera uma prática antiga e milenar da igreja: o processo iniciático do catecúmeno na vida de fé. Trata-se de uma proposta de um itinerário progressivo de crescimento e amadurecimento na fé e na vida cristã. O caminho é percorrido em 4 etapas: 1. Pré-catecumenato: tempo do querigma; 2. Catecumenato: tempo da catequese aprofundada; 3. Iluminação e Purificação: tempo da conversão e 4. Mistagogia: tempo da missão e participação integral na vida de comunidade. Entre estas etapas, o RICA nos apresenta 4 Ritos Celebrativos: 1. O Rito de Entrada (ou de admissão); 2. O Rito de Eleição (ou da Inscrição do Nome); 3. Os Ritos da Tradição (Entrega do Pai-Nosso e Entrega do Símbolo) e, 4. O Rito dos Sacramentos de Iniciação (Batismo-Crisma-Eucaristia).
A Igreja no Brasil, ao buscar esta inspiração catecumenal para a sua ação pastoral, através do Documento 107 da CNBB aplica o método de evangelização dentro do processo catequizador realizado nas paróquias e comunidades. A passos lentos, infelizmente, cada Igreja Particular não tem procurado se dedicar com mais afinco ao método. A Iniciação à Vida Cristã só será possível onde houver bispos e padres dispostos a apoiar essa iniciativa. Só será possível onde houver catequistas e ministros dispostos a fazer acontecer. Por mais que ele encontre desafios e barreiras para a sua aplicação, a IVC – Iniciação à Vida Cristã, nos apresenta “um novo paradigma pastoral. Uma exigência do nosso tempo” (CNBB, Doc. 107, n. 3). O Documento de Aparecida, que já se aproxima dos seus 20 anos de publicação, alerta-nos que, “ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente em contato com Jesus Cristo e convidando-as para seu seguimento, ou não cumpriremos nossa missão evangelizadora” (DAp, 287).
Portanto, há, nos Ritos da IVC uma grandeza eclesiológica: é preciso viver para que sejamos igreja, povo de Deus reunido e fazendo o Reino acontecer. A longa introdução do RICA nos apresenta uma Teologia da Iniciação de profunda natureza mistagógico-catequética em que o destaque aponta pra “o papel do testemunho e da participação da comunidade cristã para que os catecúmenos sejam, de fato, iniciados e amadurecidos na fé” (RICA, n. 1 a 8). O RICA, “dá uma visão inspiradora de uma catequese que realmente envolva a pessoa no seguimento de Jesus Cristo, a serviço do Reino, expresso na vivência dos Sacramentos” (CNBB, Doc. 107, n. 119).
Catequese que inspira seguir Jesus
Jesus Cristo não é uma ideia ou um sonho que nos faz acreditar em algo distante de nós. Mas Jesus é uma Pessoa, é um projeto de vida, é uma proposta convincente e iluminadora que deve transformar a nossa vida e nos fazer viver diferente. Os Ritos da IVC, em conjunto, possuem a missão de nos ingressar na comunidade que abraça a fé em Cristo Salvador e nos faz participar da sua vinha (Mt 20, 7). O Rito da Celebração de ENTRADA ao Catecumenato agrega o catecúmeno nas relações comunitárias e o acolhe. A igreja/comunidade ASSUME O COMPROMISSO de caminhar com o candidato que, neste momento abraça o processo catecumenal e deseja caminhar junto. O catecúmeno “é reconhecido como cristão” (RICA, n. 8), pois passa a ser visto, reconhecido e amado pela comunidade.
De acordo com o RICA, este Rito deve iniciar do lado de fora da igreja, revelando que os catecúmenos ainda não pertencem à comunidade. Eles expressam o desejo de fazerem parte daquela comunidade e de se comprometerem com o processo iniciático da fé e vida cristã. Eles recebem o sinal da fronte enquanto as seguintes palavras são proferidas: “Receba na fronte o sinal da cruz: o próprio Cristo te protege como o sinal do Seu amor. Aprenda a conhecê-lo e a segui-lo” (RICA, n. 83). Em seguida, os catecúmenos entram na igreja e após a homilia, cada um receberá a Bíblia: “Receba o livro da Palavra de Deus. Que ela seja luz para a sua vida” (RICA, n. 93).
Passado algum tempo, dentro do tempo do Catecumenato, o RICA prevê o Rito de ELEIÇÃO, também chamado de Rito da Inscrição do Nome. Este, “geralmente acontece no primeiro Domingo da Quaresma” (cf. RICA, n. 140-150). Primeiro, cada candidato/catecúmeno é chamado pelo nome (RICA, n. 143), estes se aproximam acompanhados de seus padrinhos que assumirão a missão de acompanhar o eleito (RICA, n. 144). Após o diálogo, o rito também questiona os catequistas e a comunidade reunida, comprometendo-os no processo de iniciação à fé destes eleitos. O Rito conclui-se com a promessa pascal e a oração sobre os eleitos. A comunidade é que é a verdadeira catequista dos catequizandos/catecúmenos. Estes “eleitos”, para fazer parte dessa igreja povo de Deus assumem um processo amadurecido de “conversão, de fé e de senso eclesial” (RICA, n. 68). O “desejo de mudar de vida, entrar em relação pessoal com Deus”, o “costume de rezar” e a “experiência da vida em comunidade” (RICA, n. 15), tudo isso passa a ser observado pelos catequistas e por toda a comunidade.
Ainda dentro do Catecumenato, mas não obrigatoriamente, o RICA ainda sugere a realização dos Ritos da Tradição, que são os ritos de entrega do Pai-Nosso e do Símbolo (Credo). De acordo com o RICA (n. 125-132), este é realizado com cada candidato, sendo ungido com o óleo dos Catecúmenos (RICA, n. 129). O Rito pode ser realizado dentro do Tempo do Catecumenato e, “quando os catecúmenos se mostrarem suficiente amadurecidos” (RICA, n. 125), ou após o terceiro escrutínio (falaremos sobre os escrutínios em outra oportunidade) (RICA, n. 188). Já a entrega do Símbolo (Credo), pode ser feito entre o primeiro e o segundo escrutínio (RICA, 184). Após a homilia, os candidatos devem rezar, juntos, o Credo Niceno-Constantinopolitano, se for possível. O Rito termina com a oração sobre os eleitos, conforme o RICA. “O processo de IVC salienta o princípio entre fé e vida que se expressa em conversão. Mudança de vida e atitudes ético-sociais” (CNBB, Doc. 107, n. 135).
Nova evangelização para novos tempos
Não se trata de um novo modo de catequese, na verdade é uma antiga forma de catequizar que se faz nova para os novos tempos, atendendo aos novos formatos a fim de acolher as novas pessoas que surgem em nossas comunidades. Portanto, que carece de “novos catequistas, abertos à escuta, ao processo formativo e dispostos ao diálogo” que correspondam ao novo e antigo método. De fato, é preciso atualizar o nosso modo de falar, de se expressar e, também de agir. Há em todo este processo catecumenal de Iniciação à Vida Cristã uma tentativa de propor aos nossos fiéis um caminho mais seguro, mais claro e mais atraente que os leve ao verdadeiro encontro com Jesus Cristo, sua vida e sua missão. Não é voltar ao passado como resposta aos novos desafios, mas de buscar nas raízes das primeiras comunidades cristãs inspiração bíblico-fontal para os tempos atuais.
O RICA nos afirma que “este rito de iniciação cristã é destinado aos adultos que, iluminados pelo Espírito Santo, ouviram o anúncio do mistério de Cristo e, conscientes e livres, procuram o Deus vivo e desejam um caminho de fé e conversão” (RICA, n. 1). Portanto, essa volta às fontes que a igreja cobra de nós é uma tentativa de buscar a centralidade do mistério de Cristo em nossa ação pastoral catequizadora. O teólogo Karl Rahner (1967), uma vez afirmou que essa centralidade cristológica parece ter ficado em segundo plano. Que precisamos recuperar em nossas catequeses a centralidade pascal de Cristo. Parar de “supor” que todos já conhecem e saibam e começar a, novamente, dizer o óbvio, devolver ao coração dos cristãos o real sentido do seguimento a Jesus Cristo. Parte disso se dá quando perdemos o sentido de comunidade ou nos esquecemos que ser igreja é ser povo unido e reunido. Ativamente atraídos pela Palavra de Deus e fortalecendo a sinodalidade e a comunhão entre nós. Hoje, busca-se tanto o “estar bem”, o “rezar bem” e o “viver a minha fé, minha eucaristia...”, “minha missa”, que o meu ganhou tanta força que nos esquecemos do nós. Os Ritos da IVC, quando vividos dentro deste itinerário reforçam o sentido de ser igreja, e nos provoca à vivência comunitária e nos abre à solidariedade. “A Iniciação Cristã é algo que diz respeito a toda a comunidade cristã” (RICA, n. 41).
Nossos catequistas pecam muito quando acham que catequizar é começar do zero e que iniciação significa, estritamente, ensinar tudo para o catequizando. Não! O catequista não tem esse poder, e graças a Deus ele não o tem. Iniciar alguém na fé supõe entrar num caminho que, de certa forma, já foi inaugurado um dia. O querigma acontece no dia a dia da história de cada um, no entanto, pode acontecer de que ele ainda não tenha sido proferido em voz alta o suficiente para que o candidato tenha escutado com clareza. Esse “voltar às fontes” que o IVC propõe, coloca-nos atentos a uma necessidade urgente em nossa pastoral: o encantamento por Jesus Cristo. Portanto, como nos ensina Aparecida: “conhecer Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher” (DAp, n. 18).
Ir. Dione Afonso, SDN
Missionário Sacramentino de Nossa Senhora
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